6.10.09

Reminiscências da adolescência...

Como a brisa da alvorada

Anuncia uma esperança fria,

Assim a lua abandonada

Deixa viver um novo dia…

E o farol que já foi barco,

Já não navega e agora, só,

Fica estático, parado,

Contempla o mar, mas olha só!

Como à noite sucede o dia,

E se escondem os astros escuros;

Como o vento abraça as rochas,

Também o amor despreza o mundo!

E a árvore que já foi ave,

Já não voa e agora, só,

Fica estática, parada,

Olha o mundo… mas olha só!

Dina Araújo (1999)

29.9.09

Desactualizado...


... pobre blog! Renegado para 2º plano dos meus confessores habituais... nem os livros lidos tenho partilhado... nem as caminhadas que tenho feito tenho contado! E o relato do caminho, está ainda nas páginas do Moleskine à espera de ser teclado...Aproveitando o período eleitoral, prometo solenemente pôr, assim que possível, cobro a esta situação!
A verdade é que vivo uma fase egoísta, fechada, algo enublada...
...mas daquela neblina das manhãs cinzentas e frias de Inverno que nos fazem sentir vivos...
...ou daquela névoa marítima, que envolve o navio que se deixa guiar pela sirene do nevoeiro...
estou tranquilamente contida e concentrada, mas avançando!
E nalgum porto seguro, ou numa daquelas manhãs com sol de inverno, espero, de alma lavada, voltar a escrever!
E entretanto, vou descobrindo o prazer de me sentir integrada na paisagem...


6.9.09

Eu não sei, tanto sobre tanta coisa...

... e cada vez sinto que o que sei representa menos no universo daquilo que gostava de saber!




23.8.09

A iniciar um novo movimento...

... o das mulheres que querem deixar de ser um aperitivo ou uma entrada, e querem passar a ser o prato principal!! Go Pornosopher! :)

18.8.09

Quando me casar vai ser assim...

... aviso desde já todos os meus amigos!

Quero uma entrada destas na igreja!



Já agora visitem este sítio para mais alguma informação...

14.8.09

Eu aderi...



12.8.09

Uma pausa no caminho para...Outras caminhadas #2


Tenho tido alguma preguiça de concluir o meu relato do Caminho de Santiago... entretanto, tenho continuado a caminhar...




Projecto 4p

Finalmente a concretização da etapa da Arrábida! Estou cada vez mais apaixonada pelo projecto e encantada com o espírito deste grupo. E caminhar continua a ter em mim um efeito balsâmico... as pernas doridas das subidas e descidas, os braços arranhados pelo mato, e os pés maçados pelas rochas do caminho fazem, por umas horas, esquecer tudo! E à
noite o corpo cansado, e mais ou menos dorido, alberga uma alma mais leve.








Imagens: Projecto 4p

11.8.09

O céu entre os muros...

Encerrar determinados capítulos na minha vida dá-me sempre uma sensação de vazio... mas daquele vazio que precede uma renovação! Um vazio de esperança e de futuro! E neste Agosto quente e temperamental é assim que me sinto...

Também nestas fases o filme da minha vida tem daquelas cenas em que aparecem grande planos a preto e branco, ou a sépia... flashback de memórias, imagens e momentos de que há muito não me lembrava mas que, sem saber explicar porquê, involuntariamente recordo.

Basta uma centelha para fazer reavivar o fogo fátuo das recordações... é quase estúpido escrever sobre isto porque o encadeamento lógico é impossível: o acontecimento recente que reavivou a recordação não podia ser mais distinto desta!

Há uns anos atrás (dez?), na Secundária que frequentei, passava uma tarde livre no bar da escola, de cuja janela se avistava o Cristo Rei! Era uma sexta-feira! Sem me conseguir concentrar nos pormenores, recordo nitidamente o meu (mau) humor (porque é um estado raro), e os amigos que me faziam companhia e cujas tentativas de me animar e fazer rir resultavam infrutíferas...

Chamemos-lhe Tiago... depois de muitas das piadas que resultaram vãs, perguntou-me porque estava tão em baixo. "Não sei!"Perguntou-me o que olhava tão fixamente... "O Cristo Rei"... mais para que me deixasse em paz do que pela vontade de responder. Ouvi as palavras que trocou com, chamemos-lhe Bruno, quase tão silenciosas como um olhar cúmplice.

Quando dei por mim estava atrelada aos dois, um em cada mão, e sendo arrastada, pela porta do bar da escola em direcção ao portão da dita!

"Onde vamos???"

"Bora! Deixa-te de merdas!" - disse um.

"Vamos ao Cristo Rei!" - disse o outro.

"Agora estás cá em baixo a olhar lá para cima. Daqui a bocado vais estar lá em cima a olhar cá para baixo..."

Ri-me, convencida, pela ironia da fórmula que arranjavam para fazer face ao meu estado de espírito!

Foi com pressa que tentámos lá chegar... a correr e a rir que nem parvos pelo caminho! Como se o Cristo que olha Lisboa, fosse de repente fugir. Tal era o entusiasmo que só quando lá chegámos nos lembrámos que a subida lá acima era paga! Entre todos, tínhamos dinheiro à justa para dois bilhetes para o elevador... e tal era o nosso entusiasmo e o nosso ar adolescente de que "a nossa felicidade futura depende de subirmos os três agora até ao cimo do Cristo Rei" que, sem ser necessário dar grande explicações, o senhor nos deixou passar aos três com dois bilhetes.

É incrivel o espectro de emoções que um adolescente consegue experimentar tão intensamente no mesmo dia... mas uma vez lá em cima sentimo-nos felizes, rimo-nos daquela forma que só as coisas mais espontâneas nos conseguem fazer rir, emocionámo-nos e eu realmente olhei a escola lá em baixo onde uma hora antes me encontrava com um humor de cão, mirando o Cristo Rei no horizonte.

Abraçámo-nos! Descemos! E quando chegamos cá abaixo e começamos e fazer o caminho de volta, descendo as ruas estreitas que ligam o Cristo Rei a Almada, Bruno, que tinha pinta de filósofo, diz, quase entredentes... "E depois de termos tocado nas nuvens, apercebemo-nos que a nossa vida está rodeada de muros!" Parámos e olhámo-lo incrédulos com o sentido que aquela frase fazia... Estávamos naquela fase ainda um pouco desajeitada, em que as coisas mais profundas eram saudadas com risadas e palmadas nas costas... mas havia um silêncio cúmplice e um sorriso nos lábios de cada um ao regressarmos, à pressa também, porque seria já perto da hora de jantar e bem mais tarde que a nossa hora de saída da escola!

E ainda hoje penso na metáfora da vida que foi esse dia da minha adolescência... Por muitos altos que sejam os muros, há sempre qualquer forma, nalgum momento, de tocar o céu, e de algum ponto mais alto perceber quão altos (ou não) são esses "muros" que nos cercam!

Descrever agora o acontecimento actual que despoletou esta memória era um anti-climax para a minha história... fica para outro dia!

Posso apenas revelar que envolve dois muros altos (duas semanas intensas a nível de trabalho e a nível pessoal) e a oportunidade de vislumbrar desta vista entre ambos!



1.8.09

Eu quero dançar....

... em todos os sítios que este senhor dançou!

And in the end there's...

Nothing new!

(Mesmo!!)



22.7.09

Rir da(s) crise(s)...



... económica!!!


... de valores!


... de homens!!!

Não... não vão dizer que não estamos crise neste sector da sociedade!...










16.7.09

Uma pausa no Caminho para...Outras caminhadas #1

Foi no passado dia 28 de Junho que esteve quase para se realizar mais uma etapa deste projecto, de Sesimbra a Setúbal... percorrendo o Parque Natural da Serra da Arrábida!...


As pessoas concentraram-se, nesse Domingo de manhã, à hora combinada no local combinado. E ainda começámos a caminhar, saindo de Sesimbra por uma longa subida em direcção a Pedreiras...

Iamos trocando, eu e a minha amiga CL, algumas opiniões sobre o prazer libertador que é caminhar... enquanto o fazíamos! Tendo feito, em anos diferentes e com percursos diferentes, o Caminho de Santiago, começámos o dia recordando que um dos aspectos de que este nos despoja, é da nossa preocupação pelo aspecto físico. A beleza é relativizada e valorizada a outros níveis.

Após uma troca de experiências, vivências e observações durante os respectivos Caminhos, ambas chegámos à conclusão, que é impossível haver peregrinas/ caminheiras "sexys"... Porque a roupa encardida de lavar dias seguidos com sabão azul e branco, o cabelo lavado com champô e sem amaciador e enfiado um dia inteiro num lenço ou debaixo de um chapéu, o pó e/ ou lama, não jogam muito a favor da beleza... e mesmo aquelas que se arriscam a um rímel ou um eyeliner antes de sair do albergue, invariavelmente chegam ao albergue seguinte como a antítese personificada da sensualidade ...


Estávamos nós nesta importante e séria reflexão, arrematada com gargalhadas, quando o dia que estava ameaçadoramente cinzento, se revela... o ping ping inicial que não impediu o grupo de continuar, rapidamente se transformou numa bátega de água, que obrigou o organizador e líder do grupo a abortar aquela etapa... para o fazer, tivemos que esperar num determinado ponto que toda a gente ali chegasse para que ele explicasse as razões sensatas que o levavam a tomar aquela decisão...

A chuva continuava impiedosa... todas a roupa que estava desprotegida pelo poncho estava já tão encharcada que ficámos naquele ponto em que mais chuva menos chuva já não fazia diferença... e foi enquanto o líder do grupo explicava algo que o barulho da chuva nos impediu de ouvir com clareza, que olhámos para nós, e fomos obrigadas a engolir as nossas próprias palavras... é que afinal podem MESMO haver caminheiras sexys... e aqui as Miss Poncho molhado são o exemplo vivo disso.



(Toda a informação sobre as caminhadas deste grupo em Projecto 4p)
Fotos de Pedro Almeida e 4P

14.7.09

Soul cleaner...

... ou como a música reflecte ou potencia o meu estado de espírito!
Estou sem medo de sentir... medo!

13.7.09

O (meu) caminho de Santiago V - De Portomarin a Palas de Rei





Apesar das especulações que dominavam as conversas no telheiro à porta do albergue, na noite anterior, o dia amanheceu cinzento, mas sem chuva... porém frio! Frio como eu não pensei que pudesse estar em Junho! Seriam umas sete quando tomámos o pequeno-almoço num café em frente ao albergue, em Portomarin. Cada um ia chegando, comia e partia quando entendia, pondo a mochila às costas e despedindo-se com um "hasta luego"!

Tomei o pequeno almoço com dois "chicos" de Vigo, Roberto e Pepe, que se queixavam, com muito sentido de humor, do autêntico concerto de roncos a 40 vozes, que tinha sido a noite naquele quarto! De facto, esta noite ainda me incomodou o ruído e o calor abafado de estar num quarto com mais 40 pessoas a dormir... nos dias seguintes, caía na cama e o sono vinha para me aconchegar... o descanso é um prazer genuíno quando estamos genuínamente cansados!!

Sai-se de Portomarin atravessando o rio por uma pequena ponte de ferro que abana por todos os lados, e entra-se no bosque numa subida que se adivinha longa!... Como o dia estava encoberto, o sol não era suficiente para desfazer completamente as sombras da noite. O orvalho matinal confundiu-se com chuva e fez-me por alguns momentos temer o desconforto desta etapa...



O caminho, mais uma vez, faz-se entre bosques e pequenas aldeias, com algumas partes em "corredores" junto a estradas de asfalto, que não deixavam de ser agradáveis.

Mais uma vez, o caminho faz-se para a frente e seguindo as diferentes indicações...


Saí de Portomarin com Pepe e Roberto mas, na primeira subida, marquei o meu ritmo e distanciei-me muito deles... Começava a ficar viciada naquela sensação de caminhar sozinha, só a sentir o coração a bater mais depressa com o esforço físico e o barulho do bastão a bater no chão e a marcar o ritmo da caminhada...

... seguindo as setas e apreciando pequenos pormenores que me faziam sorrir!


Miguel, um galego simpático que falava com toda a gente e que se gabava de fazer cada etapa em menos tempo que ninguém, "ultrapassou-me" cerca de 8km depois de partir... ele saíra provavelemente uns 45 minutos depois de mim... apesar das suas graçolas, mantive-me a meu ritmo e disse-lhe que nos veríamos em Palas de Rei.




Foi talvez dos dias mais "internacionais"... Ao longo do caminho fui encontrando e conversando com duas suecas, um alemão, um mexicano, um coreano ( que me convidou a partilhar a mesa dele na primeira paragem que fiz numa aldeia, porque o pequeno café estava cheio), duas senhoras inglesas já de alguma idade e vários espanhois...

Mesmo quando a conversa não se alongava era impossível passar por alguém e não dizer um "Hola" ou um "Buen Camino", invariavelmente acompanhado de um sorriso que transmitia a mesma cumplicidade... quer fosse um grupo de efusivas espanholas ou um par de atléticos e sorumbáticos alemães...


Os grupos de peregrinos de bicicleta formavam um espetáculo engraçado nas paragens, com os carros de apoio, as mudanças de um pneu furado e as pequenas reparações... o espírito era saudável, desportivo mas igualmente... cúmplice.

Um aviso à navegação a quem pensa fazer o caminho de bicicleta... levem uma campainha: seja uma daquelas das pasteleiras antigas, seja uma buzina de nevoeiro, seja um apito ou um badalo de uma cabra... mas levem algo para sinalizar a vossa passagem!!!... não é muito agradável, principalmente nas descidas, só se dar conta que vem um grupo de bicletas, quando o primeiro passa a centímetros de nós...


Cerca de 1h depois paro numa aldeia para descansar e beber um café, reecontrando-me com Miguel e Roberto, um tipo simpático de Madrid, que também parara ali! Roberto estava arruinado e descansava com as pernas em cima da mesa! Tinha os tornozelos inchadíssimos... ofereci-lhe um inflamatório que tinha na mochila mas ele recusou... Senti o corpo a arrefecer de estar parada... despedi-me dos rapazes e segui... Miguel ainda me disse para esperar por ele mais um pouco, mas respondi-lhe que tinha a certeza de que ao ritmo que ele andava me apanharia mais à frente...

O restante caminho foi apreciado com diferentes companhias... a mais caricata mas contudo mais agradável, foi a de um senhor na casa dos 60a nos que me contou que já perdera cerca de 20kg nos últimos dois anos só a caminhar duas horas por dia... e que achou que o caminho era um bom desafio para o seu programa de exercício...

O senhor pesaria ainda 120kg, mas caminhava com uma ligeireza e uma força de vontade que me impressionou! Caminhava sem mochila mas ofereceu-se inclusive para me levar a minha! Recusei agradecendo!
Apesar das suas motivações iniciais para fazer o caminho, estava encantado com o espirito que encontrara e contou-me emocionado como, na última aldeia por onde tinhamos passado, um velhote lhe ofereceu um bastão de madeira feito por ele dizendo-lhe que esperava que o ajudasse a cumprir o caminho, e pedindo-lhe para rezar por ele e pela sua esposa em Santiago... "Com a quantidade de jovens atléticos que por ali passavam, porque é que o velhote me pediu logo a mim?"... Sorri à sua dúvida...

O caminho habitua-nos a aceitar o que este nos oferece! Esta de facto foi a minha grande lição do dia!

Fizemos praticamente os últimos km da etapa caminhando lado a lado e conversando. O homem era um poço de cultura e explicou-me uma série de curiosidades da Galiza.

Despedimo-nos quase à entrada de Palas de Rei, faltariam uns 5km para entrar na vila! Eu estava a precisar de descansar um pouco as pernas e de repor líquidos!

Quando retomo caminho, vejo Miguel e Roberto... que vinham num passo lento e entre risos e lamúrias, queixando-se das dores que tinham!

Entramos na vila juntos e procuramos o albergue. Ivan, primo de Roberto, também de Madrid, já lá estava e esperava-nos bebendo umas imperiais na esplanada em frente!

Depois do tão esperado banho, Eu, Ivan e Roberto fomos almoçar a uma tasca que nos recomendaram... Na Galiza come-se muito bem! Provei o "caldo galego", uma sopa muito parecida com o nosso caldo verde, mas muito mais rica, e elegi-o como o melhor que tinha comido desde que começara o caminho. O menu do peregrino, incluia sempre primeiro e segundo prato, vinho ou água e sobremesa, por preço que rondavam entre 7 e 10 euros. A refeição foi excelente. E o vinho tem realmente propriedades anti-inflamatórias :)!...

Passamos o resto da tarde passeando pela vila e na esplanada da praça principal a conversar...

O jantar foi no albergue... foi um jantar comunitário... cada um colocou na mesa o que tinha! quando dei por mim tinha feito a mistura mais estranha de alimentos... "empanadas", batata frita, fruta, cerveja e ainda queijo, chouriço e vinho que uns espanhois que estavam na mesa ao lado insistiam para que provasse dizendo que eram da terra deles (Vilafranca del Bierzo)...

Combinámos organizar uma queimada (um ritual tradicional galego) na noite seguinte... ficaríamos num albergue de peregrinos privado cuja dona era amiga de Miguel.


Estava divertidíssima, quando olho lá para fora e reparo que chovia torrencialmente... com o pormenor que tinha roupa estendida! A restante que roupa que trazia além da que tinha vestida... Recolhi-a e coloquei-a pendurada no beliche com a esperança que secasse durante a noite... o que não aconteceu!...




1.7.09

O (meu) caminho de Santiago IV - De Sarria a Portomarin

Saí de Sarria ao mesmo tempo que o sol nascia... Quando comecei a caminhar surpreendeu-me a quantidade de pessoas que já se encontravam a caminho. Além disso, as ditas setas amarelas estavam por todo o lado. Foi quando comecei a descontrair em relação ao facto de me poder perder... no percurso que escolhera era praticamente impossível!



À saída de Sarria, pouco depois de um pequeno trajecto em asfalto, o caminho entra pelo bosque, e vai serpenteando por aldeias perdidas na galiza profunda, com uma outra subida mais acentuada! O cenário era idílico e a sensação de caminhar por ali indiscritível... uma mistura de liberdade, felicidade e fascínio!








Durante todo o percurso encontra-se imensa gente... conversei com várias pessoas ao longo do caminho, mas caminhei grande parte sozinha... porque realmente me dava prazer! E porque rapidamente descobri que ali - como em tantas outras ocasiões na vida - temos que respeitar o nosso próprio ritmo! É tão doloroso, fisicamente, tentar acompanhar uma pessoa que vai mais depressa, como tentar acompanhar uma pessoa que anda muito mais devagar que nós!
Mesmo quando as ditas setas amarelas não se viam em lado nenhum, numa encruzilhada, havia sempre algo a indicar o caminho certo!

Não cheguei a perceber porquê, mas encontra-se imensas botas/ ténis que os peregrinos vão deixando ao longo do caminho... imensas mesmo! Uma irlandesa com quem caminhei na parte final deste dia, mostrou-me uma série de fotos que tinha tirado...

A chegada a Portomarin é uma looongaaa descida...



...que termina com esta escadaria para entrar na vila... (embora haja uma alternativa que implica andar mais!!... ao final de 24km apetecia-me mesmo o caminho mais curto... além disso quase toda a gente que ia à minha frente estava a subir por ali!!)

À entrada do albergue uma fila enorme para entrar. Enquanto esperava dois espanhois que estavam à minha frente metem conversa. Trocámos as habituais impressões e, enquanto esperávamos para entrar no albergue, combinamos beber uma cerveja na esplanada em frente depois dos banhos.
Um pormenor engraçado à entrada dos quartos no albergue...


Da esplanada partimos para um almoço tardio (deviam ser 4 ou 5 da tarde)... no restaurante juntam-se duas peregrinas que vinham caminhando juntas desde Roncesvalles...




Trocam-se histórias de vida, trocam-se opiniões, trocam-se parvoíces e disfruta-se do momento... A grande lição do dia de hoje é: nunca estamos sozinhos!


27.6.09

O (meu) Caminho de Santiago III - "e não é que vim mesmo??!!"

A conta gotas vai saindo o relato que prometi ( a mim própria) fazer...

Dia 1, ainda em casa, acordei com uma tranquilidade que não costumo acordar em dias de viagem... a razão era simples: tinha tudo prontíssimo! E para quem geralmente faz a mala de véspera (de madrugada) ou no próprio dia, isto foi uma variante interessante...
Fui almoçar tranquilamente com uma amiga... o comboio era só às 16h! A viagem até ao Porto foi tranquila! Gosto de viajar de comboio, e sempre me deu algum prazer fazê-lo sozinha! Chego ao Porto ao fim da tarde a tempo de uma voltinha por uma cidade cujo carisma não me deixa indiferente. O quarto que o meu pai tão deligentemente me reservou na Messe de Oficiais, era demasiado pequeno, a cama minúscula e fazia uma barulheira que me acordava cada vez que me movia... a excitação também não permite um sono profundo! Por 12euros, contudo, nada tenho para me queixar... estava, entre outras coisas decidida a ter umas férias baratas!

Dia 2 acordei tão cedo que devo ter chegado à estação de Porto-Campanhã 1h30 antes do comboio... Tomei o pequeno-almoço com a sensação que aquela hora, ali, apenas estava eu, os taxistas e as "profissionais da noite"...


A viagem de comboio para Vigo decorreu sem sobressaltos... em Tuy tive que seguir de intérprete entre o revisor (espanhol) e dois turistas (ingleses) porque o primeiro tentava explicar aos segundos que estavam no comboio errado e teriam que sair na próxima estação para apanharem o certo... os segundos mostravam o bilhete ao primeiro e perguntavam quanto
é que tinham de pagar mais... e a estação, a dita estação onde teriam que sair, aproximava-se sem que ambas as partes se entendessem. Mal sabia eu que ao longo dos dias seguintes iria desempenhar este papel milhentas vezes...


Em Vigo, 30 minutos de caminhada até à estação de autocarros e uma espera de 3h pelo autocarro para Lugo que chegou atrasado... comi, escrevi, li e reli o guia... e já nem me lembro como matei o resto do tempo... Quando me sentei no autocarro lembro-me de ter pensado que já tinha andado em aviões mais desconfortáveis... aninhei-me e dormi as três horas e tal de viagem de Vigo para Lugo, com paragem nas aldeolas todas.

Em Lugo, como não podia deixar de ser, mais uma hora e meia à espera do autocarro para Sarria... Estava esganada com fome... Pedi um bocadillo e uma caña no bar e esperei, resolvida a não stressar... afinal decontas estava de férias....

A viagem para Sarria, comparada com as restantes, foi um tiro... 30 minutos que passaram como se apenas 5 fossem.

E eis que as oito da noite, estava de repente numa vilazita da Galiza... ainda sem ter onde dormir, e sem saber exactamente como é que aquela história de "peregrina" funcionava...



Perguntando, andando, procurando e, não sem antes me perder pelo caminho, lá cheguei à Calle Maior, depois de avistar a(s) primeira(s) seta(s) amarela(s)...

Comecei a subir a rua íngreme, e depois de me ter inteirado que o albergue municpal estava cheio, entrei na igreja, confesso, para me sentar um bocado e tirar a mochila... uma vez ali, pela primeira e última vez questionei-me, profanando aquele espaço, com os palavrões que me passaram pela cabeça... "Mas que m**** é que eu vim para aqui fazer?... que p*** de ideia me passou pela cabeça para vir para aqui sozinha?..." E fosse pelo cansaço, pela fome que começava a apertar outra vez, por serem 21h e ainda não saber onde ia dormir, fosse por todos os motivos ou nenhum destes, chorei com uma vontade com que não chorava havia muito tempo... e estranhamente saí dali a limpar as lágrimas e com vontade de rir de mim própria!

À saída da igreja sou interpelada por uma senhora que me pergunta se estava
a chegar e se já tinha onde ficar. Perante a resposta que já depreenderam, leva-me para o seu albergue, que ficava pouco mais acima naquela rua. Era um albergue de peregrinos privado, O Internacional, aberto havia 1 ano e meio. Paguei 10 euros. A hospitaleira, Teresa, foi um amor... instalei-me, tomei um banho recuperador, e desci para comer qualquer coisa no bar (uma das coisas que diferencia o albergue privado dos públicos).

Sentei-me ao balcão e pouco depois vem-se juntar um americano, mais ou menos da minha idade, que também viajava sozinho. Tivemos cerca de duas horas na conversa. Era um tipo estranho, com ideias muito próprias, e, pensei na altura, muito perto do limiar da loucura... mas estranhamente interessante e divertido.

Acabei por beber duas ou três cervejas... estava a conversa a correr lindamente, até chegar à parte em que falamos das motivações de cada em fazer o caminho e, no caso dele, dos sentimentos e experiências até ali... "Bullshit!!"... acho que foi a expressão que usou para definir o caminho, e todas as experiências que dele decorreram. Ouvi a sua longa explicação para esta opinião e já um pouco irritada, confesso, perguntei-lhe porque é que, sendo tudo tão mau, tendo tido tantas desilusões com as pessoas, porque não tinha desistido... responde-me, com as filosofias a que naquele curto espaço de tempo já me tinha habituado, que quando lhe apetecia desistir, havia sempre qualquer coisa que não o deixava... fosse a experiência de alguém lhe ceder a própria garagem para passar a noite num dia em que não encontrou alojamento- por não ter capacidade de andar mais, fosse por uma ou outra paisagem que o encantava e o fazia esquecer do resto, fosse por ter oportunidade de ter uma conversa "inteligente" com uma das poucas pessoas que durante o caminho tinham falado com ele olhando-o nos olhos... recebi o elogio e encaixei-o na personalidade (segundo a minha própria leitura) algo inadaptada e revoltada, por natureza, que tinha à minha frente. Acabamos a conversa com trivialidades, e rindo-nos de algumas parvoices, e mais uma ou outra cerveja, e despedimo-nos. Na altura não podia saber, mas só me voltaria a cruzar com esta personagem em Santiago, precisamente na missa do peregrino. Deitei-me, num quarto arejado, e quase vazio, com algum cepticismo face ao caminho, fruto da estranha conversa anterior... precisamente com a primeira pessoa com quem travava contacto ali! "Isto começa bem!..."